A escola surgiu, certamente, quando o ser humano percebeu que era preciso transmitir certos conhecimentos específicos ao maior número possível de pessoas a fim de assegurar a sobrevivência do grupo. Á medida que o processo de geração e renovação de conhecimentos se agigantou e os grupos sociais se diferenciaram, a instituição escolar passou a inventar maneiras de facilitar sua tarefa. Ainda não descobriu a melhor, mas já tem, ao menos, certeza de que o eixo de qualquer proposta pedagógica deve ser a palavra “construção”. A idéia de levar o aluno a construir seu próprio conhecimento, hoje presente até nas diretrizes do MEC, é que tem guiado a prática de educadores ansiosos pela melhoria do ensino público no país.
Claro que, quando falamos em construir o saber, dois nomes nos vêm à mente. Jean Piaget, autor da teoria dos estágios de desenvolvimento, ou sua discípula, a psicolingüista argentina Emília Ferreiro, hoje lecionando no México, e cuja “Psicogênese da Língua Escrita” completa mais de duas décadas. Longe de serem inventores de métodos, eles são, sim, desbravadores dos labirintos onde se processa a aprendizagem. E a descoberta de que essa aprendizagem simplesmente acontece, com ou sem mediação da escola, tem feito educadores repensarem toda sua prática pedagógica e olharem seus alunos com outros olhos.
Não é nosso propósito mergulhar numa discussão acadêmica acerca do construtivismo, mas frisar o princípio em que ele se assenta: o saber não é algo que se deposita no indivíduo, como numa conta bancária, como dizia Paulo Freire. É algo que construímos interagindo com nosso meio. Ao chegar à escola a fim de desenvolver habilidades específicas e aumentar seu saber, a criança já traz, portanto, um cabedal de conhecimentos. Basear nele o processo de ensino-aprendizagem parece ser o segredo para o bom desempenho escolar, seja qual for a origem, a história e as dificuldades do aluno.
A questão é que, ao ignorar a identidade e o saber anterior dos alunos, a escola dificulta sua própria tarefa de ensinar e desvaloriza as conquistas pessoais que eles tiveram antes de iniciar-se a educação formal. Assim, ela retira qualquer estímulo para que eles se lancem em outras aventuras: e a aprendizagem nada mais é que uma grande aventura na qual as crianças se lançam com enorme interesse desde que nascem, movidas pela curiosidade pelo mundo que as rodeia.