Se há racismo no Brasil, se declarado ou não, se são válidas políticas de ação afirmativa, como a reserva de cotas em universidades, e se contribuirão para atenuar desigualdades resultantes da cultura de rapina que caracterizou o país nos séculos de colonização _ são perguntas que jamais terão como resposta cem por cento de “sim” ou “não”. Importante é que a sociedade está, ainda que timidamente, aceitando discutir um tema freqüentemente escondido por trás do mito do entendimento entre as raças, já que os fatos são incontestáveis: negros e descendentes _ 45,2 por cento da população _ tiveram dificultado o acesso à saúde, trabalho e educação. Ou: quase metade dos brasileiros tiveram seus direitos básicos desrespeitados sistematicamente. Impossível estimar o prejuízo que representou para nosso desenvolvimento econômico e social a não utilização do potencial dessa grande massa por mais de um século _ tomando como partida a proclamação da República. Como redesenhar esse quadro, para o bem de todos e felicidade geral da nação, é o que tem gerado tanta polêmica.
E porque? Porque também é fato que a pobreza não tem escolhido cor. A outra metade da população, não negra ou parda, não está bem obrigado _ forte razão para que vozes se levantem contra ações afirmativas que concederiam privilégios a negros, quando sobreviventes brasileiros de outras raças também merecem compensação pelos maus bocados que passam. Também não há aqui o separatismo violento que fez história no Sul dos Estados Unidos. Ingenuidade, porém, usar esta argumentação na tentativa de provar que inexiste discriminação entre nós. O racismo assume múltiplas formas para não ser reconhecido, e negar sua presença é alimentá-lo.
A educação (ou a falta dela) não é a causa da segregação racial mas através dela podemos combatê-lo. A universalização do ensino fundamental e médio, seguida por um salto qualitativo da rede pública de ensino é condição indispensável para vencermos essa luta. O objetivo, no caso, não é beneficiar negros e descendentes de, porém serão eles, como grupo historicamente desfavorecido, os mais beneficiados. Sem isso, a ação afirmativa privilegiaria alguns _ quando seu o objetivo é outro: abrir as portas para os primeiros de milhares que futuramente chegarão às universidades e empresas sem precisar seguir por vias compensatórias. Discutir reserva de cotas é válido, mas não sem implementar uma política de combate à ignorância e às desigualdades. Isso serviria para dar a impressão de que algo está sendo feito. Quando não está.