Entrevista
concedida à Psicopedagogia-
Educação e Saúde Mental-On
line
( www.psicopedagogia.com.br )
em 21 de janeiro de 2005.
Quais
são os obstáculos
que encontramos na melhoria do ensino brasileiro?
R: A falta de um projeto
em curto, médio
e longo prazo, em primeiro lugar. Temos um plano
nacional de educação que deveríamos
seguir e, como signatários de tratados internacionais,
temos metas a alcançar. Mas a prática
se torna difícil, porque agimos sem planejamento.
O governo atual, como os anteriores, na maioria
das vezes só faz tapar buracos, liberar
recursos emergenciais para este ou aquele nível
de ensino e, desse modo, continua andando em círculos.
Deveríamos obedecer a um planejamento, com
estimativas de crescimento de demanda, previsão
de gastos, mas isso não ocorre. Claro que
há estudos extensos sobre isso etc. Contudo,
eles parecem ser ignorados na hora em que se formulam
as políticas públicas. Um outro problema é a
miopia dos órgãos responsáveis
pela educação, que não percebem
que a educação é um processo,
um todo, no qual não cabem ações
fragmentadas, pois elas só fazem resolver
problemas pontuais que ressurgem adiante. Isto
porque todos os níveis de ensino estão
estreitamente ligados. Uma hora, fala-se na educação
infantil, e no quanto ela é importante para
melhorar o desempenho dos alunos no ensino fundamental.
Logo depois, o assunto é esquecido e as
atenções são centradas no
ensino superior. Quando se constata o baixo nível
cultural dos alunos que estão entrando nas
universidades, o governo se volta então
para as mazelas do ensino médio, esquecendo
que ele apenas reflete a situação
dramática do ensino fundamental. Enquanto
agirmos desta forma descoordenada, não chegaremos
a lugar nenhum. O outro empecilho às melhorias é,
claro, a falta de dinheiro. FHC vetou o item do
PNE que previa o crescimento progressivo dos gastos
com a educação até atingirem
7% do PIB. Gastamos 4,3%, o que não dá nem
para a saída. Um estudo do qual tomou parte
o próprio governo constatou que, para alcançarmos
as metas do PNE, será preciso aumentar o
percentual do PIB até 7,95%. Ora, o governo
atual critica as ações do governo
anterior na área da educação,
mas ainda não fez nenhum movimento no sentido
de aumentar este percentual. Se os cofres não
forem abertos para a educação, as
metas se transformarão em sonhos.
Quais
são os rumos
da educação nestes próximos
anos?
R: É uma pergunta que todos estamos fazendo.
Pensávamos, por exemplo, que o governo Lula
agiria de determinada forma com relação
ao setor, mas, quem diria, o Presidente já chegou
a declarar até que "ensino público
e gratuito" é inviável para todos,
ao sancionar a lei do Prouni. Não aumentou
o percentual do PIB destinado à educação.
Concentrou-se na reforma do ensino superior, que,
porém, assemelha-se a um conjunto de regulamentos,
não arrisca inovações e até abre
brechas para retrocessos, inibindo a autonomia
das IES e a diversificação incentivada
pela própria LDB. Na verdade, o MEC tem
se apressado em formular políticas polêmicas
para o ensino superior e chegou a ponto de retirar
um projeto de lei que estava sendo apreciado pelo
Congresso Nacional (o do Prouni) para aprová-lo
por medida provisória. No entanto, não
está tendo pressa alguma em ajudar na melhoria
da educação básica. Estabeleceu
cotas raciais nas federais, estatizou vagas, aprontou
o texto da reforma universitária, vetou
a criação de novos cursos superiores
e por aí afora, mas o projeto para a criação
do Fundeb, que ajudaria na expansão da educação
infantil e ensino médio, teve que esperar
e só irá para o Congresso em fevereiro.
E nem mesmo sabemos quais as conseqüências
do novo fundo, pois ele de nada servirá se
não contar com mais recursos da União.
Estamos em compasso de espera, em contagem regressiva
para 2011, quando termina o prazo para que se cumpram
as metas do PNE. Sou avesso ao pessimismo, mas
não vejo grandes melhorias em curto prazo.
Mas, quem sabe, podemos ser surpreendidos.
Qual
a relação
educação/política quando
falamos de reformas no ensino?
R: A educação deveria
constar de um projeto de nação e
estar acima dos governos. Naturalmente, isso não
ocorre aqui. Como a educação é um
tema que está na berlinda, cada governo
quer deixar sua marca. Há, por exemplo,
prefeitos e governadores que preferem gastar o
dinheiro público erguendo monumentos inúteis
ao invés de consertar redes de esgoto e
melhorar o abastecimento de água, porque
os encanamentos não são visíveis.
No entanto, o saneamento é essencial para
a saúde da população. Com
a educação ocorre o mesmo. A discussão
sobre as cotas raciais nas universidades chamou
a atenção de toda a sociedade. Mas
pouco se fez no sentido de investir na educação
infantil e garantir um futuro melhor para a população
de zero a seis anos de idade, faixa etária
que registra o maior índice de indigentes
do país (perto de 39%). Pouco ou nada se
fez no sentido de aumentar a jornada diária
das crianças na escola, algo que é indispensável
para a formação das crianças
e adolescentes de baixa renda. É lógico
que chegamos a uma situação insustentável
no ensino superior, com mais de 70% dos alunos
matriculados em IES privadas. É preciso,
urgentemente, democratizar o acesso, ampliando
o número de IES gratuitas, financiando os
estudos dos mais pobres e até lançando
mão de alternativas como o Prouni. Tudo
bem. No entanto, a situação na educação
básica também é insustentável.
Computamos um índice de escolarização
de quase cem por cento na faixa dos sete aos 14
anos, de quase 80 por cento na faixa dos 15 aos
17, mas o que dizer dos mais de três milhões
que abandonam os estudos todos os anos ou do fato
de mais de 50% dos nossos alunos estarem atrasados?
Isso, sim, é um escândalo, tão
ou mais grave quanto a estagnação
do ensino superior público.
Educação para
Todos, é ou será uma realidade?
R: Há muita gente boa trabalhando
por esse ideal, dentro e fora do governo e, no
mais, a pressão internacional é grande.
Começamos aumentando o número de
crianças matriculadas nas escolas, mas logo
se tornou evidente que, sem boas escolas, bons
professores e mais recursos, não há inclusão.
Precisamos combater a evasão, adaptar nosso
fazer pedagógico à dura realidade
das novas clientelas, estabelecer turnos integrais,
possibilitar que os professores se dediquem exclusivamente
a um estabelecimento, valorizar o magistério,
dotar as escolas com os mais modernos recursos
didáticos. Podemos fazer isso. É uma
questão de para onde direcionar investimentos,
de estabelecimento de prioridades, de boa vontade
política. Infelizmente, estamos caminhando
morosamente nesta direção. Chegaremos
lá, mas quando? Recentemente, os jornais
noticiaram que escolas do Rio de Janeiro adotaram
o sistema de rodízio para poderem atender
a demanda, pois não têm vagas suficientes
para todos. As mães continuam madrugando
nas filas para garantir a matrícula dos
filhos. Situações deste tipo são
inaceitáveis e, diante delas, não
podemos falar em universalização
do ensino. E muito menos em educação
de qualidade para todos, que foi a verdadeira proposta
de Jomtien.
É preciso estabelecer
relações entre as políticas
públicas educacionais, movimentos e
a ações dos profissionais da
educação?
R: Naturalmente
que sim. Projetos de gabinete nunca deram certo,
muito menos no Brasil, um país com dimensões continentais,
marcado por diferenças sociais e regionais.
Somente os profissionais da educação
conhecem a fundo os problemas de cada localidade,
de cada comunidade, de cada criança. Somente
eles poderão garantir o sucesso das reformas
do ensino, pois sabem o "como e quando fazer".
Muitas vezes, os professores são criticados
por resistirem a mudanças. De fato, muitos
precisam abrir suas mentes às inovações,
modernizar seu modus operandi , qualificar-se
mais. No entanto, até a estes devemos dar
ouvidos e procurar saber porque agem desta ou daquela
forma. Veremos que sempre há um fundo de
razão em suas queixas e que, na verdade,
precisamos ajudá-los, e não combatê-los.
O professor é a peça-chave do processo
educacional, a chave para a melhoria do ensino.
Deve ser tratado como tal e ter seus pontos de
vista levados em conta, sempre.
Os diagnósticos
realizados por Institutos de Estudos e Pesquisas
Educacionais e entidades nacionais e internacionais
refletem a verdadeira realidade do ensino
no Brasil?
R: Creio que
esse é um ponto
do qual não temos do que nos queixar. A
LDB estabeleceu a cultura da avaliação
e, se o governo FHC teve um mérito, foi
o de providenciar um diagnóstico completo
da situação do ensino no Brasil,
divulgado sem retoques para o público. As
ONGs e entidades internacionais também têm
cumprido o seu papel, promovendo exames como o
PISA, ou então medindo até que ponto
a evolução dos indicadores educacionais
tem se traduzido em melhoria da qualidade de vida
(como a ONU faz através do Relatório
de Desenvolvimento Humano). Monitoram, enfim, os
países em suas ações rumo
ao cumprimento das metas estabelecidas em tratados
internacionais. Os resultados não têm
sido muito favoráveis para nós, apesar
de alguns indicadores terem melhorado (no PISA,
por exemplo, nossos alunos ficaram aquém
do último grau de classificação).
Todos sabemos, através destas pesquisas,
a gravidade dos problemas da educação
nacional.
O INEP
- Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio
Teixeira propõe algumas formas de avaliação
e condições de ensino tais como:
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem),
Sistema Nacional de Avaliação
da Educação Superior (Sinaes),
Sistema Nacional de Avaliação
da Educação Básica (Saeb),
Sistema Nacional de Avaliação
da Educação Superior (Sinaes).
A partir destas iniciativas, o que tem melhorado
na educação?
R: Talvez
a questão seja
justamente essa: avaliações como
o Saeb e o Enem são muito boas, principalmente
porque se preocupam em pesquisar todos os fatores
possíveis e imagináveis que interferem
no desempenho dos estudantes. No entanto, as políticas
públicas não são formuladas
de acordo com as conclusões tiradas nessas
avaliações. Elas já alertaram,
por exemplo, que estudantes que freqüentaram
a educação infantil se saem muito
melhor no ensino fundamental, e nem por isso o
governo está investindo pesado no atendimento à primeira
infância. Ao contrário, alega que
esta responsabilidade é dos municípios,
quando a Constituição diz claramente
que é uma responsabilidade conjunta da União,
estados e municípios. Alertaram, também,
que os alunos de escolas que dispõem de
bibliotecas e computadores têm mais facilidade
de aprender, mas menos de metade delas dispõem
desses recursos. Quanto à avaliação
do ensino superior, é um capítulo à parte,
pois se trata do único nível em que
a participação da rede pública é mínima.
Fica mais fácil fazer exigências a
instituições de ensino particulares,
crucificá-las, até, passando a impressão
de que estamos zelando pela qualidade do ensino.
Mas isso deveria ser feito com relação à educação
básica também, e não é,
porque não podemos crucificar instituições
públicas quando não lhes proporcionamos
condições de funcionarem adequadamente.
Quais
são os maiores
equívocos nas políticas educacionais?
R: Como já disse, a primeira
e maior falha está em uma total desarticulação
das ações que visam à melhoria
do ensino. Temos que investir ao mesmo tempo em
todos os níveis, pois todos estão
interligados. E é preciso, urgentemente,
valorizar a educação infantil e as
primeiras séries do ensino fundamental,
pois é nessa fase que decidimos o futuro
dos indivíduos. Se eles começam a
fracassar nesta etapa, todo o percurso escolar
será acidentado e se tornará difícil
resgatá-los. Entretanto, os professores
que lecionam nesses níveis são os
mais mal pagos e mal preparados, o que é um
contra-senso. A Lei de Diretrizes e Bases do Ensino
e o Plano Nacional de Educação já deram
o diagnóstico e a receita. Se apenas cumpríssemos
as leis, já daríamos um imenso passo
na direção da universalização
com qualidade. Mas as ações governamentais
não correspondem às expectativas
geradas pela LDB ou pelo PNE, não dão
continuidade a um projeto educacional já aprovado
por toda a sociedade. Esse é grande equívoco
que o governo tem cometido.
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