Entrevista concedida ao Jornaldiário da Região/São José do Rio Preto
São Paulo - em 08/01/2006

A INFLUÊNCIA DA PORNOGRAFIA NA FAMÍLIA BRASILEIRA

Qual a influência da internet e dos meios de comunicação para a cultura pornográfica se alastrar?

R: Sempre houve uma espécie de “batalha” entre aqueles que ensinam, instruem, estão incumbidos de transmitir os valores que a sociedade considera corretos a seu tempo...e os veículos de comunicação. Há alguns séculos, as famílias conservadoras e a Igreja temiam os livros devido à influência que poderiam causar na mente dos mais jovens. Muitos foram proibidos, entraram para “listas negras”... Quando o cinema surgiu, beijos na boca não podiam aparecer nas telas... Hoje, os meios de comunicação são mais invasivos e o acesso às informações foi facilitado. A TV e a internet se tornaram vitrines de tudo o que gostaríamos de extirpar: violência, racismo, pornografia etc... Mas, ao mesmo tempo, são fontes fantásticas de conhecimento, informações, cultura. O problema não está nos meios de comunicação, e sim no ser humano que deles faz uso.

O que é considerado, hoje em dia, pornografia? Houve uma banalização do que é ou não pornográfico ?

R: Todos concordam em que, atualmente, existe uma superexposição do corpo. Mas um corpo pode ser exposto sem que haja nisso nenhum traço de pornografia. Creio que a pornografia está na apresentação do sexo como algo sem finalidade, desconectado de emoções. Está, também, no tratamento desrespeitoso, indigno até, com que se aborda a sexualidade e as relações interpessoais, na transformação do outro em objeto. É o prazer corporal como fim em si mesmo, como uma fuga, em detrimento de outros valores, de comportamentos mais sadios. A pornografia nasce de uma visão distorcida do corpo e da vida sexual. Acaba se tornando uma doença, como também é uma doença a negação do corpo e da vida sexual.

Os jovens já têm mudado o comportamento sexual deles?

R: Pesquisas comprovam isso. Uma pesquisa realizada pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), em parceira com o Ministério da Saúde, ouviu 16,4 mil estudantes de 11 a 24 anos, em 2001, em cerca de 240 escolas de quatorze capitais brasileiras. Os dados apontam que nas principais capitais a idade da primeira relação sexual é 15 anos para as meninas e 14 para os meninos. Há quatro anos, um levantamento apontava que a primeira vez estava ocorrendo entre 16 e 19 anos.

O sexo é para esses adolescentes uma auto-afirmação. E o resultado é triste. Gravidez precoce, doenças sexualmente transmissíveis que se alastram, traumas físicos e emocionais que poderiam ser evitados. Na faixa entre 10 e 14 anos, o índice de meninas que declaram ter ficado grávidas varia de 22,2% a 33,3%. Adolescentes de 14 e 15 anos representam mais de 35% das grávidas atendidas pelo Sistema Único de Saúde. Para a pesquisadora Miriam Abramovay, que conduziu o estudo, tanto família como escola não atendem às necessidades dos jovens. Quanto à Aids, segundo a ONU, até 2020, 40 milhões de adolescentes estarão infectados pelo HIV, e seis mil são contaminados a cada dia, por pura falta de educação sexual, ou displicência.

Como podemos classificar a nova pornografia?

R: A diferença é que a pornografia hoje está pintada com os tons do consumismo, do imediatismo, do descartável. São corpos descartáveis, prazeres descartáveis.

Hoje em dia, já não há muitos pudores como antigamente. Tanto que os sex shops até já são mais vistos  e ficam menos escondidos. Isso ocorreu devido a quê?

R: O sexo não é um pecado. É bom que isso fique claro para os jovens. Adultos podem ter uma vida sexual sadia, criativa, contanto que se sintam bem, inteiros, que não sejam usados – o contrário do que ocorre na pornografia, em que basicamente um “usa” o outro. Assim, os sex shops não são O problema. Não precisam ficar escondidos em guetos. Você pode entrar num deles e achar tudo muito engraçado. Precisar deles é que é O problema.

Como deve ser a atual educação sexual dos jovens, se a mídia já popularizou a pornografia e a deixa nas entrelinhas, quando não é explicita?

R: Os seres humanos devem aprender desde cedo a lidar com a sua sexualidade. E isso não significa o ato em si, mas aprender a lidar com nossas características masculinas e femininas, a manejar a atração heterossexual, a respeitar nossos corpos, nossas mentes e as pessoas com quem nos relacionamos. Jovens que tiveram uma boa orientação, oportunidades de explorar seus talentos intelectuais, de amadurecer emocionalmente, sentem que o sexo faz parte de suas vidas, mas não é o centro, e, como tudo o mais, deve ser satisfatório. Os que apelam para a pornografia são justamente os que têm dificuldades de encontrar satisfação verdadeira na vida sexual e, por isso, apelam para a “coisificação” do outro. Jovens que tiveram uma boa educação sexual não se deixam impressionar. Aliás, como dizia Paulo Freire, não é a educação sexual que leva à promiscuidade, “mas a falta de educação sexual”.

Houve uma época em que os meninos brigavam para ver revistas pornôs dos amigos, primos, enfim chegavam a escondê-las dos pais debaixo da cama, etc. Atualmente, a internet facilita o acesso à pornografia. Os pais já não estão mais tão preocupados como antigamente. Não existe aí uma perda também do "trocar" idéias com amigos, do proibido, etc? Qual a conseqüência disso?

R: Muitos pais não estão sabendo lidar com essa situação. Sentem-se “vencidos” pelos meios de comunicação e preferem achar que, se o mundo chegou a esse ponto, não há nada a fazer. Daí a importância da escola na educação sexual. Pois há sempre algo a fazer em nosso pequeno círculo. Mas não sou partidário da proibição que havia no passado, porque ela excita a imaginação e faz com que crianças e adolescentes procurem orientação com as pessoas menos indicadas para orientá-los – outras crianças e jovens. É melhor que possam expor suas idéias e dúvidas e descobertas aos pais e professores.

Sem hipocrisias, não está acontecendo uma sexualização da infância?

R: O que está havendo é a transformação da criança em consumidor, em mini-adulto. A sexualidade é um forte apelo de propaganda, e é usada também quando se quer vender algo ao público infantil, seja um programa de TV ou uma sandalinha. Creio que todos os países da Europa e América já possuem algum tipo de regulação quanto à apresentação de pornografia e violência na televisão. Mas, naturalmente, há apelos subliminares através da publicidade, filmes, programas infanto-juvenis.

A garota de programa Bruna Surfistinha, de 22 anos de idade, esteve (está) na mídia nacional, lançou um livro onde conta suas aventuras, etc. Há algum tempo ela seria marginalizada. Hoje, ela faz sucesso e tudo acontece de uma forma muito natural, como se fosse comum e corriqueiro ser garota de programa, sair com homens casados, etc. O que o senhor acha disso?

R: O que percebi, nas entrevistas de Bruna, é que ela reconhece que também perdeu muito ao escolher este tipo de vida. É bom que se frise isso. Ela tem o direito de expressar suas opiniões a quem quiser ouvi-la. A questão não é o que é mostrado na TV, mas como se mostra, de que forma um apresentador explora a presença dessa pessoa. Quer causar escândalo, chocar o público? Ou ter uma conversa inteligente com a entrevistada? Sabemos que programas de TV de baixo nível pululam por aí. Um expectador bem informado, educado, saberá separar o joio do trigo.

O culto a beleza também não faz com que os homens procurem cada vez mais a perfeição nas mulheres, assim como faz com que elas também busquem, para agradá-los, a mesma perfeição? Quais as conseqüências disso tudo para a cabeça de meninos, meninas,  adolescentes, homens, mulheres...?

R: Mas este culto existe desde o início dos tempos. Homens sempre idealizaram as mulheres, seus corpos, tipo de comportamento que devem ter... e vice-versa. É um sentimento atávico. A mídia não cria nada, apenas apela para sentimentos que já se encontram dentro de nós. É o que a publicidade faz: vender uma idéia que, no fundo, nós já valorizamos. Quando a idealização impede o fluxo normal de nossa vida e sentimentos, prejudica nossa vida social e emocional, e resvala para o exagero, precisa mesmo é ser tratada por um terapeuta.

Como impedir que a pornografia moderna entre nos lares? É necessário impedi-la ou evitá-la, por quê?

R: Podemos controlar os sites que nossos filhos acessam na internet, impedir que vejam canais na TV por assinatura voltados para o sexo. Mas nada disso adiantará se não os ensinarmos a discernir o que deve ser valorizado ou não.

Como os pais devem lidar com a erotização cada vez mais frequente nos programas de TV, publicidades, revistas, já que quando não estão explícitas são subliminares?

R: Como disse acima, devemos orientar os nossos filhos. Não podemos desinventar a pornografia e nem manter as crianças em uma redoma. Mas podemos estabelecer com elas um diálogo aberto, sem censuras, e assim fazê-las perceber que a grande realidade é que tudo se resume, afinal, em um grande apelo para o consumo, para esvaziar o bolso deles.

  Em que momento os valores morais entram na educação sexual atual, onde e como ficam?

R: Valores morais e sexo não entram em choque. O sexo faz parte da vida. É o sexo tratado com indignidade que é imoral. O desrespeito à pessoa humana, seja em que área da vida se manifeste ­­­– sexo, amor, trabalho, família – é que é imoral.

Isso tudo também não faz com que se perca a sedução e a conquista?

R: A necessidade de seduzir e conquistar também é atávica. Quando o jovem encara o sexo como artigo de consumo rápido, é porque sua visão está distorcida. Com o tempo, ele percebe que está perdendo algo importante, que é justamente o desenvolvimento desta arte das relações interpessoais, onde entra o prazer da conquista, da descoberta.

A desenvoltura virtual é a mesma que a real?

R: Naturalmente que não. Por mais webcams que se tenha, na verdade você está se protegendo atrás de uma máquina.

Como o imaginário pornô pode infantilizar as relações?

R: Infantilizar uma relação significa, a meu ver, esperar que o outro faça o que você quer a tempo e a hora, usar de chantagens emocionais, não se aprofundar no conhecimento e na compreensão do outro. A pornografia, por ser algo raso, é um meio, mas não o único, que pode ser usada nesse processo de infantilização.

A  oferta visual não está muito escancarada? Há como remediar essa situação? Onde vamos parar?

R: Como disse, muitos países já têm uma regulamentação a este respeito, calcada no bom senso. No Brasil, estamos discutindo o tema há anos, mas a “baixaria”, de fato, tem trânsito livre. No entanto, nossa Constituição, no artigo 221, diz que a produção e programação das emissoras de rádio e TV devem dar ‘preferência a finalidades artísticas, culturais e informativas' e respeitar os ‘valores éticos e sociais da pessoa e da família'. No artigo 220, diz que compete à lei federal ‘regular as diversões e espetáculos públicos, cabendo ao Poder Público informar sobre a natureza deles, as faixas etárias a que não se recomendem, locais e horários em que sua apresentação se mostre inadequada' e ‘estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto no artigo 221'. Portanto, creio que o brasileiro que se sente lesado tem uma legislação a seu favor. Infelizmente, os brasileiros não estão acostumados a exercitar sua cidadania, opinar sobre a sociedade que querem para si e seus filhos. A nossa população é subescolarizada e, de certa forma, parou diante da TV. Para isso, só uma solução: educação e mais educação, desenvolvimento do espírito crítico e da capacidade de discernimento.

 

Conselheiro do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro

Magno de Aguiar Maranhão

www.magnomaranhao.pro.br

 

«  Home       

 
 
Criação e Desenvolvimento