A escola particular, por mais qualidade que tenha, por mais projetos sociais que faça, sempre enfrenta algumas resistências e, muitas vezes é acusada de mercantilista. Na sua opinião a escola particular, em geral, é assim?
R: Mercantilista é aquele que subordina tudo ao interesse, ao ganho. Portanto, generalizar este adjetivo para as instituições particulares de ensino não seria apenas inadequado e injusto: estaríamos mentindo. O fato de cobrarmos por um serviço não significa que não sejamos indivíduos éticos e preocupados em oferecer o melhor para nossos clientes, e isso vale para todo e qualquer tipo de serviço: educação, saúde, transporte, etc. Além disso, creio que devemos fazer uma separação: a acusação de “mercantilismo” vem sendo usada especialmente contra instituições privadas de ensino superior, não contra as que atuam na educação básica. Isso se deve ao fato da rede privada ter absorvido a imensa demanda por cursos de graduação que a rede pública não conseguiu absorver. Segundo os dados do último censo do Inep publicado, há no Brasil 207 IES públicas e 1.652 particulares, absorvendo 70,8% das matrículas. Então, os empresários da educação são acusados de terem se aproveitado deste déficit na rede pública e criado mil e um cursos sem a menor preocupação com a qualidade do serviço que ofereciam. A prova estaria nas avaliações realizadas pelo MEC, que sempre apontaram o melhor desempenho das universidades públicas. Creio que muitas IES particulares, na ansiedade de ganhar alunos, possam mesmo ter criado cursos sem a necessária infra-estrutura e, até, baixado o nível de exigência em seus vestibulares. Mas tomar o todo por uma parte é um erro. Dizer que todas estão mais preocupadas com seus ganhos e precisam de um controle rígido do governo para oferecerem um ensino de qualidade chega a ser desrespeitoso. Quanto às escolas particulares da educação básica, nem é preciso lembrar que o desempenho de seus alunos é, em tudo, superior ao dos alunos das redes estaduais e municipais, e sua infra-estrutura é infinitamente melhor * .
· A que se deve este "ranço" que acompanha a trajetória da escola particular? Isto tem a ver com a formação histórica do país?
R: Mesmo em uma análise superficial da trajetória da escola particular ao longo da história do Brasil veremos que, se algum ranço há contra ela, 0é muito recente. Na verdade, o que ocorreu foi o contrário. Ela foi importantíssima para nosso país desde o descobrimento. As primeiras escolas foram fundadas pelos jesuítas e, a partir daí, as instituições de ensino católicas, particulares portanto, proliferaram, e sempre primaram pela qualidade do ensino. Nunca houve no Brasil preocupação alguma com a educação popular, pública, até o início da revolução industrial, quando se verificou que o país não poderia competir, e nem mesmo ser visto pela comunidade internacional como um bom mercado consumidor, se sua população era completamente incapaz de compreender os avanços científicos e tecnológicos da época, ou seja, incapaz de compreender novas técnicas de produção que iam sendo incorporadas. Em resumo, desqualificada. Educação, durante o tempo do Brasil Colônia e durante o Império era um privilégio das elites e, mesmo quando se começou a pensar em educação de massa, manteve-se a separação: escola primária gratuita e de artes e ofícios para o povo. Quanto às escolas secundárias públicas, eram poucas, extremamente seletivas, e para as elites. E havia as particulares, também para as elites que podiam pagar por um ensino melhor e preparar-se para os estudos superiores. As escolas particulares, simplesmente, não podiam ser ruins, nem mais ou menos, porque atendiam uma nata. Claro que, com a expansão que aconteceu depois, até os dias de hoje, devem ter surgido aquelas mais preocupadas com o lucro imediato, enfim, mercantilistas. Mas eu diria que, nesse ramo, quem não oferece qualidade, não sobrevive.
· O sr. acha que algumas escolas conseguem reverter esta imagem? Conhece alguma do RS?
Falei acima das instituições católicas. Por coincidência, conheço a obra dos La Salle, que estão no Rio Grande do Sul desde o início do século XX, começaram oferecendo o ensino primário, beneficiando, inclusive, filhos de famílias pobres que não podiam pagar pelos estudos e não contavam com escolas públicas. Sei que hoje eles oferecem toda a educação básica, incluindo educação profissional, e há pouco mais de 30 anos criaram sua instituição de ensino superior, o Unilasalle, que agora é um centro universitário e já oferece 22 cursos de graduação. Um exemplo de instituição privada dedicada à boa educação.
· Na sua opinião qual a importância e o papel histórico que ocupa a escola particular hoje?
Novamente, temos que fazer uma separação. De 57 milhões de alunos da educação básica, somente uns sete milhões estão em escolas particulares, situação que, como vimos, se reverte no ensino superior. Então, no que diz respeito à graduação, a importância da rede privada foi e é imensa, pois foi ela que permitiu a expansão do ensino superior no país. O índice de jovens atendidos neste nível ainda é baixo (situa-se em torno de 11% no total da população entre 18 e 24 anos), mas, sem as IES privadas, seria muito mais baixo. O problema é que não podemos pretender universalizar o ensino superior através de IES privadas, porque a renda da maior parte da população brasileira não permite. Em relação à educação básica, temos que destacar as escolas privadas como as que mais obedecem ao princípio do “pluralismo de idéias e concepções pedagógicas” defendido pela nova Lei de Diretrizes e Bases do Ensino. A rede privada é a que mais inova, a que mais arrisca, e acredito que a rede pública tem muito a aprender com as boas instituições particulares.
Publicado na Revista:
EDUCAÇÃO EM REVISTA ANO VII NUMERO 50 – JUN/JUL 2005 – pagina 06 capa- www.sinepe-rs.org.br
* Apenas para citar alguns exemplos: da 1 a à 4 a série do ensino fundamental, 16,7% das escolas públicas têm laboratórios de informática, contra 68,8% das particulares. Da 5 a à 8 a série, 38% têm os laboratórios, contra 82,2% das particulares. No ensino médio, eles estão presentes em 53% das públicas e 88,4% das particulares. Quanto às velhas e boas bibliotecas, encontram-se em 42,2% das públicas que oferecem das 1 a à 4 a série, e em 83% das particulares; em 69,1% das públicas que oferecem da 5 a à 8 a série, e em 83,9% das particulares; em 83,9% das que oferecem o ensino médio e em 93,8% das particulares.
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