PRONUNCIAMENTO NA ABERTURA DO SEMINÁRIO NACIONAL DOS
CENTROS UNIVERSITÁRIOS – UNIMONTE – SANTOS – SP
*Magno de Aguiar Matranhão A preocupação em adotar medidas visando à resolução
dos problemas educacionais no Brasil é recente, ao contrário
do que ocorreu em outros países. E essas medidas, embora,
a princípio, bem intencionadas, nem sempre têm contado
com o aval de todos os envolvidos. O ensino superior, cujo acesso é ainda
restrito a tão poucos, apesar da multiplicação
de instituições de ensino, enfrenta hoje o desafio
de uma expansão acelerada, mas necessária. Ao mesmo
tempo, passa por reformulações que visam a sua diversificação
e flexibilização, a fim de ser coerente com o mundo
onde nossos jovens profissionais vão atuar, e no qual “transformação” é a
palavra de ordem. Na ânsia de garantir que o ensino superior
cresça com qualidade, ou seja, cumpra seu papel nesse novo
mundo, sistemas de avaliação são divulgados
como a solução para as deficiências das IES
para, depois, serem eles próprios reavaliados e aprimorados
pelos que o criaram. Muitas vezes, os discursos oficiais que justificam
e explicam avaliações como o Exame Nacional de Cursos
e a ACO (avaliação das condições de
oferta) conflituam com outros, que defendem uma graduação
mais moderna e flexível, uma autonomia maior das instituições
para decidirem suas prioridades, o respeito à diversidade
cultural e às diferenças regionais do Brasil.
Acreditamos que essas
contradições serão
resolvidas com o tempo, à medida que as respostas das instituições
de ensino a essas avaliações externas forem ouvidas
com mais atenção. Mas, enquanto isso, nossa tarefa é manter
a cabeça fora da água e, ao mesmo tempo, provar que
nossa presença é relevante nesse processo de diversificação
e expansão do ensino superior brasileiro. Os centros universitários,
em vias de obter seu recredenciamento, como determina a Portaria
1.465 do MEC, têm essa dupla missão: sobreviver às
avaliações que forem impostas, mesmo que alguns de
seus critérios atuais sejam discutíveis, e, paralelamente,
firmar este novo modelo institucional no cenário educacional,
ainda pouco compreendido pelo público, embora bem conhecido
em países mais desenvolvidos, onde o ensino superior, mais
democratizado, já encontrou, há tempos, outros espaços
além da universidade tradicional, ao qual o Brasil ainda
se prende.
O fato é que o MEC, acompanhando um movimento que começou
há poucas décadas no seio das próprias instituições
de ensino superior da rede privada, preocupadas com a proliferação
descontrolada de novos estabelecimentos e a inexistência
de parâmetros para medir o serviço oferecido por eles,
decidiu pôr ordem na casa e definir o famoso e amplamente
debatido “padrão mínimo de qualidade” para que um
curso possa continuar funcionando. Uma IES está dentro do
padrão quando cumpre certas exigências. Este conjunto
de exigências é, digamos, o básico, o “mínimo
que se pode esperar” de cursos de graduação. Se se
constatar que as universidades e os centros universitários
estão respondendo satisfatoriamente a essas exigências,
diz a recente Portaria, a Secretaria de Ensino Superior do MEC
recomendará à Câmara de Educação
Superior do Conselho Nacional de Educação o seu recredenciamento
por um período de cinco anos. Ou, melhor dizendo, lhes dará um
crédito, uma espécie de voto de confiança.
E o que se pede às instituições para que
elas ganhem esse crédito temporário? Segundo o artigo
sétimo, que: tenham obtido conceitos A ou B em mais da metade
dos cursos avaliados nas três últimas edições
do Exame Nacional deCursos; que tenham obtido conceitos CMB ou
CB em mais da metade dos cursos avaliados nas condições
de oferta;
que tenham comprovado, no caso de universidades, a oferta de programa
de pós-graduação stricto sensu avaliado
com conceito igual ou superior a três pela Capes.
Para começar, sabemos que uma boa performance em determinados
itens destas avaliações independem da instituição
e da qualidade do ensino que ela oferece. O melhor exemplo disso é o
problema que temos enfrentado com o Provão. Vejamos: o ensino
médio teve um crescimento de 57 por cento nos cinco últimos
anos da década passada, crescimento este liderado pela expansão
das matrículas na rede pública. Os egressos das escolas
públicas que chegam às instituições
de ensino superior privadas, geralmente depois de terem tentado
sem sucesso vencer a disputa nas universidades públicas,
apresentam deficiências graves na sua formação
básica, o que dificulta o acompanhamento do curso na graduação.
Quando não o abandonam, por não poderem pagar mensalidades,
ou não conseguirem dividir seu tempo entre trabalho e estudos,
chegam ao final com um histórico apenas suficiente para
sua aprovação, mas sem terem aproveitado todos os
recursos que a instituição colocou à disposição
para uma boa formação. Os resultados se refletem
no Provão. E são ruins.
Mas não estamos falando de uma desvantagem das instituições
privadas, e sim de uma realidade cada vez mais presente em todas
as IES, inclusive as mais tradicionais universidades públicas.
Estas também têm pela frente a tarefa de lidar com
uma clientela diversificada (bem diferente das elites universitárias
do passado) e não poderão, simplesmente, se contentar
em eliminar, a cada período letivo, aqueles que se revelarem
incapazes de alcançar seu padrão. De cada cem pessoas
que ingressam na graduação, somente 65 completam
o curso (69 nas IES federais). As taxas de evasão são
altas demais. Ora, já são tão poucos aqueles
que chegam ao ensino superior (12 por cento da população
jovem), que não podemos permitir que tantos desistam, seja
porque motivo for, no meio do caminho.
A solução que sugerimos para este problema específico,
com o qual somos confrontados a cada edição do Provão, é:
ao invés de gastarmos mais tempo que o necessário
na infindável discussão sobre a qualidade, ou a falta
de qualidade da educação básica, comecemos
a pensar em meios para ajudar esses alunos que são verdadeiras
vítimas de um ensino ruim. Revisão de disciplinas
básicas? Incentivo à leitura? Aulas de reforço? Ótimo.
Vamos investir nisso. Não seremos as primeiras IES no mundo
a fazê-lo. Pensemos também em programas tutoriais,
como o PET das instituições federais, os de iniciação
científica ou outros do gênero. O importante é criarmos
uma rede de apoio para os alunos, a fim de que eles possam se entrosar
com a instituição e, importante, evoluir junto com
ela.
Outra dificuldade com
que as IES têm se debatido diz respeito à titulação
exigida para o corpo docente. Segundo o Censo 2000, o número
de professores com doutorado, em todo o sistema de ensino, aumentou
63,8 por cento entre 1994 e 1999. Nas instituições
privadas, os doutores são 10,3 por cento. O número
dobrou, diz o Censo, mas é insuficiente para atender as
exigências feitas pelo MEC na avaliação das
condições de oferta. O s 18.374 mestres e 5.344 doutores
formados em 2000 representam ínfima parcela das matrículas
da graduação, e, além do mais, quantos destes
querem fazer carreira como professores? O sistema de ensino superior
tem 173.836 professores e só 34.937 deles são doutores.
Mesmo somados os mestres, menos da metade possui um título.
Naturalmente, cabe aos
centros universitários, que são
desobrigados da oferta de programas de pós-graduação,
dar aos seus professores incentivo para que freqüentem programas
de outras instituições, podendo até mesmo
arquitetar parcerias com universidades nesse sentido. Mas é claro
que o setor público está, também, obrigado
a fazer sua parte: programas de pós-graduação
requerem investimentos significativos. Ora, se o governo pretende
que o Brasil chegue a 2006 com cinco milhões de matrículas
na graduação, terá que trabalhar para que
seja duplicada a capacidade do sistema. Novos cursos e instituições
deverão surgir. Mas, se elas só poderão funcionar
com um número X de docentes titulados, onde encontraremos
mestres e doutores em número suficiente para dar conta do
recado?
Precisamos, portanto,
insistir com o setor público que
realize investimentos em programas de pós-graduação
em todas as áreas do conhecimento e em todas as regiões,
já que o Sudeste concentra a maioria, para suprir a carência.
Sem isso, parece que a expansão do ensino superior ficará comprometida.
A menos que as regras do MEC sejam alteradas, ou que o Plano nacional
de Educação para a década seja modificado.
Claro que não cabe, agora, discutir se titulação é sinônimo
de uma boa prática da docência, ou se é decisiva
para a melhoria da qualidade do ensino.
Cabe, porém, esclarecer a controvérsia sobre a qualidade
em nossas instituições. Segundo a legislação,
os centros universitários são instituições
que se caracterizam, quanto à função, “pela
excelência do ensino ministrado...”. A palavra, obviamente,
está sendo usada como se tivesse o mesmo sentido da palavra
qualidade, embora não tenha. Uma instituição
de ensino é excelente quando oferece um diferencial, um
algo mais do que a média. Se esse diferencial, com o tempo,
se torna presente na maioria das IES, passa a ser considerado requisito
para o padrão médio de qualidade. Quem quiser o rótulo
da excelência terá que subir para outro patamar.
Não é simples. O excelente aqui pode não
passar de médio em universidades consideradas de excelência
nos Estados Unidos ou Europa. Alguns departamentos também
podem se destacar pela excelência, enquanto outros têm
qualidade, mas não são excelentes, porque não
se desviam muito do padrão. Assim, não tem sentido
nenhum exigir que todos os centros universitários se destaquem
pela excelência do ensino, mas sim que obedeçam a
um determinado padrão de qualidade. Mais tarde, alguns,
inevitavelmente, revelarão sua excelência nesta ou
naquela área de atuação. Extrapolarão
aquilo que se espera deles.
Isso, naturalmente,
demanda tempo. Sabemos que são exíguos
os prazos que o MEC estipula para que sejam sanadas as deficiências
constatadas nas suas avaliações. Resta-nos, por enquanto,
tentar cumpri-los ou negociá-los. Mas me refiro a outro
ponto, aos objetivos que temos em vista em um prazo mais longo, à qualidade
na tarefa a que nos propomos: o ensino da graduação,
a formação de indivíduos com uma base sólida
de conhecimentos e capazes de mobilizar suas competências
para agir em face de situações novas ao longo da
vida profissional, e que serão muitas nesta nova era. O
velho método da transmissão de conhecimentos deve
ser substituído pelo processo da produção
do conhecimento. Não conseguiremos mudar da noite para o
dia, mas precisamos avançar, experimentar novas formas de
ensinar e aprender. Este deve ser um compromisso de cada centro
universitário: apostar na pesquisa como principio pedagógico.
Quando se fala da indissociabilidade
do ensino-pesquisa-extensão,
parece que ela é uma verdade apenas nas universidades. Mas
o fato de uma universidade manter programas de pós-graduação
que tocam avançados projetos de pesquisa não quer
dizer, absolutamente, que a pesquisa, como conceito educativo,
esteja presente em seus cursos de graduação. Muitas
vezes, a integração entre os dois setores é zero.
Pois bem. O que temos como meta é estimular, nos alunos
da graduação, a curiosidade, o olhar questionador
e investigador sobre a sua realidade. Como? Partindo das atividades
de extensão, que devem ser valorizadas. Através delas,
os alunos trazem suas dúvidas e experiências e detectam
em que pontos a teoria transmitida em sala de aula já não
se encaixa com a realidade. A extensão permite uma troca
constante que oxigena o processo ensino/aprendizagem e leva os
jovens a buscar soluções para o imprevisto, o novo,
o inesperado.
E, se estamos desobrigados
das atividades de pesquisa que caracterizam as universidades,
isso não quer dizer que não sejam
desejáveis ou que devam ser descartadas dos nossos planos.
Seria ótimo se uma das nossas metas fosse o desenvolvimento
de pesquisas de médio ou pequeno porte, ao menos, visando
sempre à qualidade do ensino com a qual estamos comprometidos.
Isso exigirá de nós abertura para parcerias entre
instituições, com empresas e órgãos
de fomento. E essa abertura é positiva. Mesmo porque, no
mundo da interação, da troca instantânea de
informações e novos conhecimentos, fechar-se é condenar-se à morte.
Finalmente, a avaliação. A auto-avaliação,
que deve permear todas as atividades dos centros universitários.
Para que ela seja possível, honesta e conseqüente,
cada instituição deve definir quais são suas
possibilidades de atingir objetivos num prazo determinado, e traçar
estratégias de ação. Todos os envolvidos nos
projetos, alunos, professores, dirigentes, funcionários
administrativos, precisam estar cientes desses objetivos e diagnosticar
os obstáculos existentes em sua área para que sejam
atingidos, bem como sugerir meios de superá-los. Isso implica
em uma democratização das decisões, em maior
integração entre os membros do grupo, que passam
a dividir responsabilidades e se sentem participantes do desenvolvimento
da instituição.
Não falamos aqui de uma auto-avaliação que
vise punições e cortes. Mas que tenha como propósito
o aperfeiçoamento do serviço oferecido pelo centro
universitário. É uma tarefa sem fim: este aperfeiçoamento
exige adaptação contínua às mudanças
na sociedade, para o qual preparamos os nossos alunos. E essa integração
com a sociedade, que é também um laboratório
para nossas pesquisas, deve ser, sem dúvida, o diferencial
do ensino nos centros universitários, e objeto perene do
nosso projeto de avaliação interna.
No mais, como um novo
modelo no cenário do ensino superior
brasileiro, precisamos firmar nossa identidade, e isso deve ser
feito em conjunto. É indispensável esclarecer, para
governo e sociedade, quem somos e o que pretendemos e o que se
pode, realisticamente, esperar de nós, aqui e agora. É melhor
que façamos isso, antes que façam por nós.
Não podemos agir isoladamente. Estamos aqui para construir
uma base, na qual cada centro universitário possa se apoiar
para desenvolver seu projeto, com a qualidade que o ensino superior
brasileiro procura neste período de crescimento, mas também
de confusão e incerteza.
*Presidente da Associação
Nacional dos Centros Universitários – ANACEU
Julho de 2001 |